"E DISSE aos discípulos: É impossível que não venham escândalos, mas ai daquele por quem vierem!” Lucas 17:1
Introdução
No Novo Testamento, encontramos quinze ocorrências do termo grego σκάνδαλον (skandalon), geralmente traduzido como “pedra de tropeço”, “escândalo”, “tropeço” ou “obstáculo”. Literalmente, o termo pode apontar para o gatilho ou gancho de uma armadilha, a própria cilada, ou qualquer impedimento colocado no caminho para fazer alguém tropeçar e cair.
Em sentido figurado, skandalon refere-se a qualquer pessoa, ensino, atitude, comportamento ou situação que se torne causa de queda, desvio, pecado, incredulidade ou ruína espiritual. Em alguns contextos, também pode ser entendido como “ofensa”, não apenas no sentido moderno de ferir sentimentos, mas como algo que se torna um impedimento espiritual diante da verdade de Deus.
Em um sentido muito específico, essa palavra foi usada para ilustrar a forma como muitos enxergaram o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A pessoa, a mensagem e a obra de Cristo contrariaram profundamente as expectativas de muitos judeus acerca do Messias. Por causa da obstinação e incredulidade, muitos rejeitaram Aquele que veio para salvar, fazendo naufragar a própria esperança de salvação.
A ideia original do termo traz à mente a figura de uma armadilha aparentemente imóvel, associada a uma isca que atrai a presa. A armadilha possui uma pequena peça, como uma trava ou gatilho, que, ao ser tocada, faz todo o mecanismo se fechar. Assim, skandalon não é apenas “algo feio” ou “um escândalo público”, mas aquilo que aciona a queda, provoca ruína, faz alguém tropeçar ou leva alguém a ser apanhado espiritualmente.
Por isso, quando o Novo Testamento usa skandalon, normalmente está tratando de algo que pode parecer pequeno, mas que possui grande efeito espiritual. O “escândalo” é o ponto de acionamento da queda. Alguns autores associam o termo a uma causa negativa que coloca em movimento uma relação de causa e efeito: algo é dito, feito, ensinado ou permitido, e isso acaba conduzindo alguém ao pecado, ao erro ou à rejeição da verdade.
Esse entendimento nos ajuda a compreender textos como Mateus 16:23, quando Jesus diz a Pedro: “Tu és para mim pedra de tropeço.” Pedro não estava apenas “ofendendo” Jesus no sentido moderno da palavra. Sem perceber, ele estava oferecendo um caminho que desviaria Jesus da cruz. Suas palavras se tornavam um skandalon, isto é, um obstáculo espiritual, uma sugestão capaz de afastar o Senhor do caminho da obediência ao Pai.
Em Romanos 14:13, Paulo orienta os crentes a não colocarem tropeço diante do irmão. A ideia é profundamente pastoral: minha liberdade, minhas palavras, minhas escolhas e meu comportamento não devem funcionar como o gatilho de uma armadilha que leva outro a cair. Já em Apocalipse 2:14, Balaão é lembrado como aquele que ensinou Balaque a lançar tropeços diante dos filhos de Israel, criando uma situação que os conduzisse ao pecado.
Portanto, a melhor tradução interpretativa de skandalon não é apenas “escândalo”, como normalmente usamos em português, mas “aquilo que serve de gatilho para a queda”, “a causa que faz alguém tropeçar” ou “o obstáculo que conduz alguém ao pecado e à ruína espiritual.” Esse sentido é mais forte do que a ideia moderna de escândalo como vergonha pública, polêmica ou má reputação. No grego bíblico, skandalon é algo mais profundo: é a peça da cilada, o ponto de acionamento da queda, o tropeço que conduz ao pecado, ao erro ou à rejeição da verdade.
O termo ocorre em 13 versículos do Novo Testamento, aparecendo três vezes somente em Mateus 18:7, totalizando quinze ocorrências. Alguns textos associam skandalon a palavras de sentido semelhante, ampliando o entendimento do ensino bíblico. De forma geral, o termo pode ser observado em três grandes contextos:
1. Advertências feitas por Jesus acerca do discipulado
Mateus 18:7 “Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual vem o escândalo!”
Jesus ensina que os tropeços inevitavelmente surgirão no mundo. Contudo, essa inevitabilidade não diminui a responsabilidade pessoal de quem se torna instrumento de queda para outros. Ao contrário, torna essa responsabilidade ainda mais séria.
Nos versículos seguintes, Mateus 18:8-9, o Senhor fala de uma renúncia radical, usando linguagem forte para demonstrar que tudo aquilo que conduz ao pecado precisa ser tratado com seriedade. O discípulo deve vigiar para que sua liberdade, suas palavras, seus hábitos ou seu exemplo não façam almas mais frágeis tropeçarem.
A mesma advertência aparece em Lucas 17:1-2, onde Jesus afirma que seria melhor para o causador do tropeço ter uma pedra de moinho atada ao pescoço e ser lançado ao mar do que levar “um destes pequeninos” ao pecado. Essa imagem mostra a gravidade espiritual de se tornar causa de queda para alguém.
Mateus 16:23 “Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens.”
Nesse episódio, Jesus identifica rapidamente uma tentativa maligna de desviá-lo de Seu propósito redentor. Pedro, sem perceber, foi influenciado por uma lógica humana e carnal, tentando dissuadir Jesus do caminho da cruz.
A resposta de Jesus foi firme, porque o que estava em jogo era o plano eterno da salvação. Pedro, naquele momento, não falava segundo a mente de Deus, mas segundo os pensamentos dos homens. Por isso, suas palavras se tornaram uma pedra de tropeço.
Esse episódio nos leva a refletir sobre a importância da vigilância espiritual. Nem toda sugestão aparentemente piedosa vem de Deus. Nem todo conselho aparentemente amoroso conduz à vontade do Senhor. Existem palavras, influências e caminhos que podem nos afastar da presença de Deus e do cumprimento de Seus propósitos.
As ciladas que tentam nos paralisar, desviar ou enfraquecer devem ser discernidas e vencidas com submissão a Deus, autoridade espiritual e fidelidade à Sua Palavra.
Lucas 17:1 “Disse Jesus a seus discípulos: É inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual eles vêm!”
A advertência de Jesus nos chama à vigilância. Devemos cuidar para não sermos instrumentos de escândalo, tropeço ou queda para ninguém. As consequências espirituais para aquele que provoca a queda de outros são extremamente sérias.
2. Instrução apostólica sobre a vida da Igreja e a evangelização
O Antigo Testamento já antecipava que a pedra messiânica seria, ao mesmo tempo, fundamento de salvação para uns e pedra de tropeço para outros. Essa ideia aparece em textos como Isaías 8:14 e Isaías 28:16.
Em Romanos 9:33, Paulo cita essa imagem: “Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e uma rocha de escândalo.” O apóstolo mostra que Cristo é a pedra colocada por Deus. Para os que creem, Ele é fundamento seguro; para os que rejeitam, torna-se pedra de tropeço.
Pedro aplica o mesmo princípio a Cristo em 1Pedro 2:8, afirmando que muitos tropeçam porque desobedecem à Palavra. Assim, o mesmo Salvador que sustenta os crentes torna-se juízo para os desobedientes, confirmando a justiça de Deus.
Nesse mesmo sentido, Paulo cita Salmos 69:22 em Romanos 11:9: “E Davi diz: Torne-se-lhes a sua mesa em laço, e em armadilha, e em tropeço, por sua retribuição.”
A proclamação apostólica inevitavelmente confronta o orgulho humano. Por isso, Paulo afirma em 1Coríntios 1:23: “Pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gregos.”
A cruz ofende a autossuficiência humana. Ela confronta a religiosidade vazia, a sabedoria meramente humana e toda tentativa de salvação pelas próprias obras. Qualquer tentativa de suavizar essa mensagem enfraquece o poder do Evangelho.
É nesse sentido que Paulo declara em Gálatas 5:11: “Eu, porém, irmãos, se prego ainda a circuncisão, por que sou, pois, perseguido? Logo o escândalo da cruz está aniquilado.”
A fidelidade ao Evangelho exige que abracemos a mensagem da cruz, mesmo quando ela é rejeitada pelo mundo. Contudo, ao mesmo tempo, devemos evitar acrescentar ofensas desnecessárias por meio de atitudes carnais, palavras duras, falta de amor ou mau testemunho.
Em Romanos 14, Paulo aplica o conceito de tropeço à comunhão entre os irmãos. Em vez de julgar questões secundárias, os crentes devem assumir o seguinte propósito:
Romanos 14:13 “Assim que não nos julguemos mais uns aos outros; antes seja o vosso propósito não pôr tropeço ou escândalo ao irmão.”
O cristão maduro aprende a limitar sua liberdade quando necessário para preservar o bem espiritual do outro. O amor cristão não pergunta apenas: “Eu posso fazer isso?”, mas também: “Isso edificará meu irmão? Isso poderá levá-lo a tropeçar? Minha atitude glorifica a Deus?”
De modo semelhante, Romanos 16:17 exorta a Igreja à vigilância contra aqueles que promovem divisões e ensinos contrários à doutrina apostólica:
Romanos 16:17 “E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles.”
Ser pedra de tropeço pode resultar da convivência com pessoas resistentes à verdade do Evangelho, embora estejam entre os crentes. Muitas vezes, são pessoas dominadas por interesses carnais, mais preocupadas em prevalecer sobre os outros do que em glorificar a Deus.
Tais pessoas agem com resistência à sã doutrina, promovem parcialidade, alimentam divisões e colocam seus próprios interesses — ou de seus seguidores — acima da unidade da Igreja e da obediência à Palavra. Isso é extremamente sério. Por isso, Paulo recomenda que os crentes se afastem daqueles que, mesmo afirmando seguir a Cristo, agem de maneira contrária ao temor de Deus e à verdade do Evangelho.
O ensino apostólico também reforça a necessidade de cuidado no trato com os irmãos. Nossas ações podem produzir esfriamento espiritual, mágoas, divisões, ressentimentos e conflitos quando deixamos de agir segundo Deus e passamos a agir de maneira carnal.
Fazemos isso quando praticamos acepção de pessoas, ferimos com palavras, discriminamos, criticamos destrutivamente, difamamos ou tratamos o próximo como inferior, esquecendo-nos de que também somos pecadores carentes da graça de Deus.
O apóstolo João resume esse princípio em 1João 2:10: “Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há escândalo.”
O verdadeiro amor pelos irmãos nos conduz a uma vida de cuidado, prudência e responsabilidade espiritual. Quem ama não deseja ser causa de queda. Quem ama procura edificar, proteger, restaurar e conduzir o outro para mais perto de Cristo.
O próprio Jesus denunciou a religiosidade exterior dos líderes que, em vez de conduzirem o povo a Deus, tornavam-se impedimento para que outros entrassem no Reino. Em Mateus 23:13, Ele repreende aqueles que fechavam o Reino dos céus diante dos homens. Isso mostra que até mesmo a aparência religiosa pode se tornar uma armadilha quando não está acompanhada de verdade, humildade e obediência a Deus.
Apocalipse 2:14 relembra a narrativa de Balaão, mostrando que os tropeços podem ser morais, culturais, espirituais ou cultuais:
“Mas algumas poucas coisas tenho contra ti, porque tens lá os que seguem a doutrina de Balaão, o qual ensinava Balaque a lançar tropeços diante dos filhos de Israel, para que comessem dos sacrifícios da idolatria, e fornicassem.”
Balaão não atacou Israel diretamente com armas, mas ensinou Balaque a criar uma situação de sedução espiritual e moral. Assim, o povo foi conduzido ao pecado por meio de uma cilada cuidadosamente preparada. Esse exemplo permanece como advertência para a Igreja: nem todo perigo vem em forma de perseguição aberta; muitas vezes, o tropeço vem disfarçado de oportunidade, prazer, vantagem, concessão ou conveniência.
3. Contexto profético ou escatológico
Na consumação dos tempos, o próprio Senhor tratará definitivamente com tudo aquilo que causa tropeço. Em Mateus 13:41, Jesus declara que o Filho do Homem enviará os Seus anjos, e eles ajuntarão do Seu Reino tudo o que causa escândalo e todos os que praticam a iniquidade.
Esse texto mostra que Deus não trata o pecado, a sedução espiritual e os tropeços com indiferença. Aqueles que persistem em causar queda, promover o erro e resistir à verdade serão removidos da comunidade redimida.
O mesmo princípio aparece na repreensão feita à igreja de Pérgamo, em Apocalipse 2:14, onde o Senhor denuncia aqueles que toleravam a doutrina de Balaão. Isso revela que a Igreja precisa permanecer vigilante não apenas contra pecados evidentes, mas também contra ensinos, influências e práticas que, pouco a pouco, conduzem o povo de Deus à infidelidade.
Esses textos revelam uma preocupação constante nas Escrituras: o povo de Deus deve evitar fazer outros caírem, mas também deve permanecer firme diante da inevitável ofensa gerada pela cruz. A cruz será sempre escândalo para o orgulho humano, mas jamais deve ser abandonada, suavizada ou substituída por uma mensagem mais agradável ao mundo.
Conclusão
Como servos de Deus, comprometidos com Sua Palavra e com Seu Reino, precisamos viver em constante vigilância. Somos chamados a ser cooperadores de Deus, conforme 1Coríntios 3:9, e isso inclui cuidar para que nossas atitudes, palavras, escolhas e relacionamentos não se tornem causa de tropeço para outros.
Uma vida alinhada à Palavra de Deus nos ajudará a preservar a nós mesmos e também aqueles que nos cercam de situações que possam produzir queda espiritual, raízes de amargura, divisões, conflitos e afastamento da fé.
Ao contrário disso, devemos cuidar uns dos outros com amor sincero, humildade e compaixão. O apóstolo Paulo nos chama a viver com “entranháveis afetos e compaixões” em Filipenses 2:1, e também nos exorta em Efésios 4:3: “Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz.”
Esse amor não nasce apenas da força humana, mas é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, conforme Romanos 5:5. Por isso, devemos buscar uma vida cheia do Espírito, marcada por mansidão, discernimento, domínio próprio e compromisso com a edificação do Corpo de Cristo.
O apóstolo Pedro também nos orienta em 1Pedro 1:22: “Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro.”
Que Deus nos abençoe e nos capacite a andar dessa forma tão sublime e desafiadora. Que nossas palavras não sejam armadilhas, mas instrumentos de graça. Que nossas atitudes não sejam tropeços, mas exemplos de fé. Que nossa liberdade não enfraqueça os irmãos, mas seja exercida com amor. E que a cruz de Cristo permaneça no centro da nossa fé, ainda que seja escândalo para o mundo, pois para nós ela é o poder de Deus para a salvação.
Pr. Fabiano Ribeiro
Assembleia de Deus Esperança
Ponta do Farol - São Luis - MA